Início Opinião Nuno Pires O Salvador da Pátria

O Salvador da Pátria

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Estamos ávidos de ser Portugal. Não sou eu que o digo, basta observar as manifestações que Éder e, mais recentemente, o Salvador Sobral despertaram nos milhões de portugueses de aquém e além-mar.

Pertenço a uma geração que cresceu no sonho de ver Portugal entre os grandes mas, por esta ou aquela razão, as contas saiam-nos sempre furadas. E, donos de uma resiliência ímpar e de um conformismo que nos restava como consolação, encolhíamos os ombros e dizíamos: para o ano é que é. Mas não era.

Chegou o momento da realização desses sonhos adiados. Não sei se passamos a acreditar mais em nós mesmos ou se, finalmente, chegou a nossa vez, mas a verdade é que em menos de um ano, Portugal logrou duas vitórias que muito almejava, impondo-se no panorama internacional e conquistando mais respeito.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

Longe vão os anos em que o Festival Eurovisão da Canção, espetáculo ímpar do ano televisivo da época, reunia famílias e centrava as atenções de países. Os anos passaram, a oferta é infinita e o festival não soube reinventar-se.

Confesso-me afastado do evento que deixou de cativar-me, por um lado pelos parcos resultados e fraca qualidade das representações portuguesas e, por outro, porque se reveste de uma espetacularidade plástica que tem estandardizado as participações de novos e velhos países desta Europa em mudança.

O inglês tornou-se língua oficial do evento, os efeitos especiais e coreografias rebuscadas substituíram a beleza e a harmonia das canções, perdeu-se a essência.

Salvador Sobral chegou, viu e venceu, mantendo-se fiel a si mesmo e afastado das regras vigentes. Numa música despida de espetacularidade, que nem em Portugal reuniu consensos, soube cativar a Europa e o Mundo, conquistando confortavelmente a vitória e fazendo justiça à música portuguesa que, por questões políticas ou outras, foi preterida ao longo de décadas.

Cantou em português, contrariando a tendência, e pôs a Europa a falar a língua de Camões.

Foram muitas as canções e interpretações portuguesas que mereciam mais da Europa e, ano após ano, vimos a política prejudicar-nos, a troca de favores atribuir classificações máximas a prestações inferiores às nossas. Paulo de Carvalho, Dulce Pontes, Anabela, Rita Guerra, entre muitos outros, mereciam ter sido mais valorizados por uma Europa arrogante e mesquinha que nos olha de soslaio.

Ontem voltei a ver o festival e foi estranha a sensação de, delegação após delegação, ver a votação portuguesa ir engordando e manter-se no topo da classificação do primeiro ao último momento. Inédito. Se a matemática não me falha, foram dezoito os países que nos atribuíram votação máxima, os tais doze pontos que tão poucas vezes nos eram concedidos. Mas isso era dantes.

Mérito da autora e compositora, Luísa Sobral, e do intérprete, seu irmão, Salvador Sobral. De forma singular e genuína, acrescentou ternura e magia a uma canção que, por si só, transporta emoções.

E é disso que se trata, é isso que se espera. A Europa emocionou-se com a simplicidade e a doçura que Portugal levou consigo. Viram-se lágrimas, fez-se silêncio à interpretação de Salvador e finalmente ganhámos, pela porta grande. Júri e televoto concordaram na decisão.

“Amar pelos dois” mereceu versões várias, tem sido cantada um pouco por todo o mundo e até Chico Buarque veio a público manifestar o seu apoio à canção e à interpretação de Portugal.

Um verdadeiro fenómeno, sem precedentes. Como diria a minha avó, “tardamos mas arrecadamos”.

No próximo ano, Portugal será anfitrião de um festival que nos habituámos a acompanhar ao longe. Os sonhos tornam-se realidade, mesmo quando parecem impossíveis, basta acreditar.

Parabéns, Luísa e Salvador Sobral, e obrigado por nos devolverem a esperança e a confiança no país único e talentoso que somos, num 13 de Maio que fica para a história, mais de uns que de outros.

Palavras leva-as o vento.

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Nuno Pires
Nuno Franco Pires, nasceu em Elvas em 1975 e é um alentejano orgulhoso das suas raízes. Gosta de escrever – sempre gostou. Começou por pequenas histórias, onde os amigos de infância eram os protagonistas, passando pelo blog Dualidades (asdualidades.blogspot.com) do qual foi coautor e onde abordava temas que marcavam a actualidade. Cativam-no as relações humanas e a interacção entre as pessoas; é sobre elas que escreve. Tem participado e vários concursos literários tendo ganho uma menção honrosa no prémio Glória Marreiros, organizado pela Câmara Municipal de Portimão, com a novela "Amor entre muralhas" escrita em parceria. Participou na colectânea "Ei-los que partem" da editora Papel d' Arroz e com a chancela da Chiado Editora editou o seu primeiro romance, "Searas ao vento". Colaborou com a TV Guadiana, publicando semanalmente, pequenas histórias da sua autoria e incorpora o painel de tertulianos da rúbrica "Conversas de Barbearia" do blog Três Paixões.

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