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Reconhecida pela dinâmica e empreendedorismo das suas gentes, é na aldeia da Terrugem que a arte de curtimento das peles conhece o seu expoente máximo.

Em várias famílias locais, o saber passou de geração em geração. A Magarreiro é uma delas.

É difícil precisar como e quando se iniciou a atividade na aldeia, a história perde-se na memória dos tempos. Sabe-se apenas que já durante a Primeira Guerra Mundial se fazia o tratamento de peles.

A crise também teve impacto no ramo, no entanto, quatro ou cinco empresas mantém-se na luta. O ramo perdeu importância mas continua a ser das principais empregadoras da aldeia.

Fomos ao encontro de Gaspar Magarreiro, o fundador da Artipel para conhecer um pouco melhor a profissão que dá fama à freguesia e a torna conhecida um pouco por toda a parte.

Encontrámo-lo na fábrica de que é proprietário, no limite da aldeia, com a serenidade de quem sabe o que quer. Em meia dúzia de salas ficámos a conhecer os bastidores de uma empresa que em nada deve ao que de melhor se faz no ramo. Da conceção gráfica à operacionalização da ideia e à transformação da matéria-prima, a Artipel dispõe da maquinaria necessária para produzir a qualidade que a tem consolidado no mercado. Tudo é pensado ao pormenor. É assim que sabem trabalhar.

Tomamos assento numa sala ampla, o showroom da empresa, onde tomamos contacto com os produtos do novo catálogo.

Primeiro os avós, depois os tios, Gaspar Magarreiro herdou-lhes o gosto pela transformação das peles, talvez das temporadas de verão em que por lá passava. O pai não tinha nenhuma fábrica. O filho criou uma.

Ainda assim, a sua vida profissional nem sempre passou pela atividade. Findos os estudos, com dezassete anos, iniciou-se no mundo do trabalho pela Casa Pé Curto, uma empresa de mobiliário que ainda se mantém ativa na freguesia. Seguiu-se o serviço militar, regressando depois às origens e ao trabalho que deixara.

Mais tarde, revelando já o carácter empreendedor que se lhe reconhece, sente a necessidade de criar o seu próprio negócio e as raízes familiares levam-no a enveredar pelo ramo onde cresceu.

“Comecei alguns meses sozinho, durante quatro ou cinco meses, depois começou a minha esposa a trabalhar comigo e desde aí a empresa veio crescendo.”

A aposta foi, desde a sua fundação, na diferenciação. Mais do que fazer o que todos faziam, ou sempre se tinha feito, a empresa transportava a inovação no seu ADN.

Em vez das carpetes, dos tapetes ou das pantufas, com pelo, os porta-chaves e os porta-moedas de pele foram as suas primeiras criações: “criámos até um porta-chaves que foi quase um ícone a nível nacional composto por uma tira em precinta com uma fita e uns cavalinhos e levava um estribo pendurado. Produzíamos milhares por dia. Eu até dizia que toda a gente em Portugal já usava um porta-chaves daqueles”; diz-nos em jeito de brincadeira.

O sorriso é uma constante, acompanha-o na cadência das palavras, das histórias que partilha.

A evolução deu-se em paralelo com a moda e as tendências. Desde sempre a preocupação em desenvolver e produzir soluções que fossem de encontro ao gosto e à necessidade dos clientes: “nós trabalhámos sempre a pele sem pelo, fazendo utensílios de moda, muito direcionados às senhoras, cintos, carteiras, bolsas, malas, artigos de viagem.”

Seguiu-se a cortiça enquanto matéria-prima, de qualidade superior, 100 por cento natural e ecológica. Na atualidade, estes produtos representam já cerca de oitenta por cento da produção da Artipel.

O crescimento do negócio fê-lo constituir uma equipa de trabalho que, de momento, chega aos vinte colaboradores, não só oriundos da aldeia, como também do concelho e de outros concelhos. Verdadeiros artesãos, capazes de conferir ao produto a qualidade desejada.

Além da loja criada no centro da aldeia, a escassos metros da igreja de Santo António, os produtos da Artipel estão disponíveis um pouco por todo o mundo: “exportamos para mais de quarenta países, alguns com uma presença mais forte como é o caso da França, Suíça, Estados Unidos, mas também na América do Sul, em toda a Europa, na Ásia.”

A loja, sob a supervisão da esposa, Cristina, representa uma pequena parcela do total do negócio. Acima de tudo recebem o cliente de passagem que se fidelizou com o tempo e que volta.

A cultura da empresa, também assente na afabilidade e no carisma do seu fundador, garante-lhe a continuidade: “temos clientes desde o início da atividade, que trabalham há vinte e seis anos com a nossa marca”. Colhe-se o que se semeia.

Em Portugal chegam-lhe quarenta clientes sedeados nas principais cidades, aeroportos e destinos turísticos por excelência. Com isso confere-lhes a exclusividade que potencia ainda mais o negócio.

A estrear catálogo por estes dias, a Artipel continua focada na “inovação, design e qualidade do fabrico e do produto. Estamos continuamente à procura de novos produtos, novas matérias, novas máquinas que nos permitam realizar produtos de forma diferente.”

Atento, curioso por natureza, valoriza o conhecimento de novas realidades como forma de enriquecimento. Presença frequente nas diversas feiras da especialidade, move-o a procura de novas soluções, da diferenciação que sabe ser o segredo do sucesso.

“Há sempre algo de novo que se traz, que se aporta e que pode ser a solução em determinado momento.”

As sugestões do cliente são sempre bem-vindas. São elas que contribuem de forma decisiva, ano após ano, para os catálogos desenvolvidos: “procuramos até surpreende-lo. Esta coleção apresenta grandes novidades como é o caso dos produtos transformáveis.”

Passa pela oferta de múltiplas soluções e até alguma exclusividade nos produtos vendidos: “são bolsas que o próprio cliente pode montar da forma que quiser. Tem oito bases diferentes, 24 abas, de cores e padrões diferentes, permitindo um número infindável de composições.”

Ao todo, mais de seiscentos produtos, das mais variadas gamas, dos acessórios de moda ao calçado, dos artigos de escritório aos jogos de tabuleiro, dos porta-chaves aos relógios de parede.

O caminho faz-se a caminhar e a Artipel soube afirmar-se como referência nacional na arte de transformar a pele, mas também a cortiça. Confidencia-nos com satisfação que a SIC passou por lá por estes dias, Não sabe ao certo quando será transmitida a reportagem.

“Quando a APCOR – Associação Portuguesa de Cortiça faz algum evento, convida-nos a nós para vestir, colocar algum adereço ou decorar o próprio espaço.”

Emana a humildade dos grandes, modesto nas palavras mas sempre sonhador.

Chegou a recear pela sucessão. De há três anos a esta parte pôde respirar de alívio. A trabalhar em Lisboa, Gaspar conseguiu que a filha voltasse às origens e integrasse os quadros da empresa. Reconhece a mais-valia que esse regresso proporcionou: “são ideias novas, é mulher, tem sempre uma sensibilidade diferente.”

É otimista quanto à continuidade, assim se mantenha a qualidade reconhecida ao produto, a qualificação da mão-de-obra e a filha corporize as suas expetativas.

O sucesso do passado e do presente a espelhar o futuro que, apesar de incógnito, tem a vida facilitada.

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